quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Beibe punk

Quando esse olhar castanho faísca nada resiste, nada se sustenta em pé, tudo escorre pelas bocas, pelos cantos dos olhos.

Atrasamos esses calendários, as regras e falamos sobre as dores nas costas, das seriedades de nossas gargalhadas, sem ligar para palavras que se escondem em paredes, papéis e monitores.

Em madrugadas fico pelo fim. Solto suas lembranças, desato as minhas mãos e me permito guiar as sombras e as réstias de luzes que invadem meu lençol.

E quando vejo (sinto), nada tenho além de uns belos e loucos rocks na minha cabeça.


Me atiça quando alimenta as minhas mãos com os rijos e adocicados peitos e suas ereções. Mesmo com dentes trincados e mesmo olhando para dentro dos olhos essa beibe punk diz que tá indo por mim e que, por enquanto, nada vai nos separar...

(inspirado em Lady Punk de Sylvia Patrícia e reelaborada para a Beibe Punk de meus segredos)

O Beijo (microconto)

Raimundo sentiu pela primeira vez os lábios de Telma roçarem os seus. Estavam úmidos, quentes. Ele fechou os olhos e abriu a boca com se quisesse engolir o mundo. A mulher de meia idade contorceu o pescoço, franziu a testa e deixou sair um sussurro apertado entre os dentes amarelos. Pela garganta de Raimundo escorreu um sabor diferente, mas que revivia lembranças de tantas outras bocas. Sua língua foi envolvida pelo espesso sabor de tudo e se transmutava em falo, em dedos, em vento, em idas e vindas, sem ainda deixar de ser língua. De braços caídos para os lados, Telma permanecia tenra, com lábios entreabertos, mostrando os segredos de um sorriso sem sorrir, entregue ao beijo que vinha de lábios fortes, desconhecedores de alegrias, envolvidos em pêlos e em saliva. Em um pulsar, a mulher permitiu as mãos de estivas de seu homem abrir-lhe ainda mais, revirar os gigantescos lábios que se ainda se escondiam por baixo da renda rósea encardida e continuar a lamber, beijar, tragar a fenda funda, secreta e tão perfumada de prazer.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

E assim se fundearam os tristes navegantes...

... Enquanto que outros aproveitaram para tomar o timão a todo o custo. Os papagaios de piratas, no outro lado, bateram as asas em busca de um ombro mais que amigo.

Não era de se esconder: a embarcação estava encalhada há tempo. O prejuízo se alastrou nos mastros, na proa bojuda que carregava afilhados e até na popa onde a chafurda se instalou pela primeira vez.

A nódoa, que ainda cheira a azedo, era escondida nas velas enroladas, em outras meio rasgadas e na última com remendos em linha podre que, com certeza, não mudarão tão cedo. No estuário de Natal, beirando o rio e o mar, encalharam-se a incompetência, a inoperância, a inaptidão, a inabilidade, tudo aquilo que serve de veneno para muitos como eu.

Pintaram apenas por pintar, com cores estranhas, a nau atracada. Tudo foi mais largo e bem mais profundo do que a beleza desse rio que se contempla, principalmente a vontade plena da má vontade. Pregos batidos, pontas viradas, tábuas rasas, outras largas, espessas onde a cupinzama mastigava suas horas de pobres navegantes comissionados, isso tudo foi em vão.

Se descermos ao primeiro porão, veremos as pilhas de papéis rasgados em pedaços miúdos: contabilidades da pirataria justamente quando pensávamos que existiam apenas navegadores bravios. O que disfarçadamente capitaneava a carcomida embarcação claudicava de cima para baixo enquanto que os seus sequazes penhoravam arpões, balas de canhões e até as pernas-de-pau para bebericar rum e mastigar uma ginga no outro lado do mesmo rio.

E por fim, a água amarronzada pela lama pura do mangue ainda tentou lavar em vão os pequenos e belos camarotes contaminados pelos sobrenomes dos que lá deixaram suas digitais e os restos de juízos sem idéias...

Falo sem saber do entendimento de um ou de outro, apenas falo de uma imagem estática no fim de uma ladeira infinitamente maior que o meu rancor, meu ódio profundo, de ver que, as nossas conquistas pelo mar adentro, não passarão de ilusões – meras e naufragadas ilusões.

De um bilhete dentro de uma garrafa,

Subscrevo

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

CLASSIFI_conto (microcontos que se vendem)

Uma boneca inflável pouco usada, ainda na caixa, com complexo de bissexual e usada apenas para sexo oral.

As tranqueiras

São todas as que ocupam as prateleiras mais altas, que empanturram as caixinhas de madeira, as que estão guardadas dentro dos saquinhos de plásticos. Quem não as tem?

São aquelas que perdemos horas em recortar dos jornais e revistas, que ganhamos dos amigos que nunca mais apareceram, que compramos na cigarreira da esquina, que juntamos das embalagens de chiclete.

São as capas dos cadernos antigos que guardam as assinaturas dos colegas de colégio, é a fotografia três por quatro da primeira carteira de estudante, é o primeiro poema de amor com a palavra ‘amor’ acentuada.

É a pilha de discos de vinil, a vitrola que nada toca, o ferro de carvão que serve para guardar moedas, o violino desafinado, as revistas de culinária, os cordéis pendurados nas paredes, livros que nunca lerei, outros que os tenho por amor, dois computadores: um lento e outro já falecido.

São as envelhecidas fotografias de Paula Saldanha, Sandra Bréa e Daryl Hanna com marcas de dobradas e que ainda se escondem no fundo do armário, pequenos calendários de ruas antigas, canetas que não “escrevem”, páginas encardidas de bloquinhos ainda sem anotações, revistas em preto e branco, um terço da primeira comunhão, a primeira calculadora de visor esverdeado que veio de São Paulo, um saco de cartões postais de Natal em um tempo que não vivi, mas que sinto saudades.

Uma bicicleta com pneus vazios, uma luminária velha pedindo cores de tintas e uma lâmpada, meia dúzia de quadros sem desenhos, duas chinelas de couro, dois anéis que não cabem mais em meus dedos, uma bolsa de tiracolo cheirando a mofo, dois ternos ensacados e que espero jamais usá-los, cinco caixinhas de incenso, uma carta para papa Noel.

Cada tranqueira com seu valor, seu troco, sua minúscula parcela de lembrança.

E quando penso em traçar destinos para cada uma delas, longe de mim, sinto sair, mar adentro numa nau sem destino, parte de minhas falas, do que penso, do que ainda sou.

Polias e motores que pariam sonhos

As minhas aventuras mais afoitas e atrevidas nunca ultrapassavam o quarteirão do cinema Rio Grande. O prédio da esquina era o segundo maior gigante que eu conhecia. O primeiro era a maquina que meu pai dirigia e que arrastava o mundo sobre as suas dezenas de pneus.

O cinema era a aventura de quase todas as tardes dos domingos. Após o farto e alvoroçado almoço, eu estendia sobre a cama a parelha de roupa e desencaixava o novíssimo e quase apertado sapato de verniz. Ficava esperando a hora de me banhar, vestir a roupa engomada, calçar o lustroso par de sapatos e sair para a primeira sessão.

Caminhava na calçada da Prudente de Morais em linha reta, dobrava a esquina, atravessava dois quarteirões e lá estava ele: o maior prédio do mundo. Destrinchava com meus olhos de dez anos todos os detalhes, sua altura descomunal, as paredes grossas, as portas de metal vazadas, aqueles enormes e coloridos cartazes protegidos por vidros espessos, os degraus de mármore. Apesar da ansiedade, pressa e agonia de ser o primeiro a chegar, sempre havia um arremedo de fila com meia dúzia de outros ansiosos.

A fila crescia rapidamente. Outros pequenos cinéfilos, acompanhados ou não, surgiam de outras esquinas e de dentro de automóveis. Na minha vez, na ponta dos pés, pedia a moça uma meia-entrada. O pequeno vão semicircular e aquela escuridão pouco compreensiva não me deixavam ver a dona da voz que sempre mandava conferir o troco. Embrulhava as moedas nas poucas cédulas que me restavam para comprar alguns confeitados e subia o pequeno lance de escada que dava para o saguão do cinema.

Duas gigantescas cortinas vermelhas segredavam as entradas: uma para o térreo, outra para o pavimento superior. Entre uma cortina e outra, um balcão de tampo de vidro que expunha mil e uma iguarias para criança de dez anos alguma colocar defeitos. No outro lado do balcão, uma moça de avental controlava o anseio da pequena clientela. Eu apontava para quase tudo e levava de chocolate a pastilha de hortelã para me acompanhar durante a hora e meia de encantamento.

Escolhia o pavimento superior e atravessava uma das enormes cortinas vermelhas. Lá em cima, acompanhava o parapeito até o meio e subia mais um lance de escada até encontrar, através de critérios que até hoje desconheço, a poltrona ideal. Abria o assento acolchoado e espichava as pernas e depois o dorso. Em menos de dez minutos as pequenas lâmpadas laterais se apagavam, uma a uma. Aprumava-me no assento, mascava algumas balas e deslizava os olhos naquela tela enorme, buscando as imagens que iam surgindo pouco a pouco.

Lá no fundo apenas um barulho rouco de polias e motores que pariam o sonho e o encantamento.

O som rouco que saía das caixas escondidas atravessava meus ouvidos e deixava em meus olhos uma sensação de não mais existir.

Era cinema!

Uma hora e meia quase sem piscar, a garganta adocicada, as costas adormecidas pela concavidade do encosto: já era hora de voltar. Deixava as letrinhas que subiam bem devagar desaparecerem encandeadas pelas luzes das luminárias para que eu pudesse fazer o caminho inverso.

Eu me misturava aos desconhecidos na escadaria e fazia questão de acarinhar a gigantesca cortina vermelha pela última vez naquele dia. Atravessava novamente o saguão e deixava um olhar de canto de olho para o balcão envidraçado e para a moça de avental.

A noite já apontava para as bandas da Avenida Deodoro e eu seguia alinhando os passos nos mosaicos das calçadas alheias. Na boca ainda um restinho da bala de hortelã, nos olhos, alguns sonhos. No meio do quarteirão seguinte, olhava por sobre os ombros para ter a certeza que o gigante existia ou se era apenas imaginação.

Foram dezenas de domingos até que um dia o gigante cerrou suas portas vazadas, engendrou crias gêmeas e enterrou-as prematuramente.

Hoje passo pela calçada do Rio Grande e ainda consigo ver as letras enormes dos cartazes de filmes antigos. Escoro minhas mãos nas grades vazadas, lanço os olhos no velho saguão e ainda consigo ver a moça de uniforme separar pra mim, sobre o tampo de vidro, as balas de chocolate, hortelã...

domingo, 4 de outubro de 2009

“Répi bôrdei tuiú”

Da minha varanda vi quando o Chevette 1986, creme, parou na frente da casa de Flavicleide, enfeitado com bexigas de gás, estampas adesivadas e faróis de milha. A meninada e os mais velhos fizeram muxoxos e arregalaram os olhos quando uma moça de vestido abalonado saltou de dentro do carro, abriu a mala e ligou a aparelhagem de som com uma gravação de música de parabéns quase que da mesma idade do carro.

Sorridente, a apresentadora já desceu empunhando um microfone enrolado em uma flanela cor de rosa e chamando a aniversariante do dia; “Onde está a Flavicleide? Onde está a aniversariante?”. A meninada saiu correndo para a frente da casa, apontado o quarto e sala onde morava Flavicleide com seus três filhos e marido. Os mais velhos apenas esticavam os beiços apontando a direção do caminho.

Da aparelhagem rouca do Chevette ouviu-se o grito gasguito da moça quando viu a recém quadragenária Flavicleide cruzar a porta de duas bandas: “Aqui está ela! Parabéeeeens querida! Estamos aqui para comemorar o seu aniversário. Viemos trazer uma mensagem dos seus amigos, dos seus filhos, do seu marido...”. A surpresa pegou a aniversariante lavando a louça do jantar, enxugou as mãos com o encardido paninho de prato, para depois descansá-lo por sobre o ombro esquerdo. De olhos arregalados, abriu um sorriso meio sem jeito para a animadora. A meninada começou a aparecer um a um e apertar as bexigas penduradas no bagageiro do vulgo automóvel até estourá-las. O marido, com a barba de vários dias, foi o último a aparecer. Arrastando uma sandália de dedo, fez-se de desentendido, escorando todo o sobrepeso apenas na perna esquerda, enquanto esperava o desenrolar daquele serviço que lhe custara quase seis meses de economias.

Uma mensagem de Cid Moreira fez a abertura e depois o microfone foi disponibilizado para quem desejasse dar ‘uma palavrinha’ para Flavicleide. A primeira a se manifestar foi Erotides – uma vizinha e amiga de infância, de colo farto, lábios arroxeados e generosas cadeiras. A moça lembrou-se das brincadeiras de criança, das peripécias de quando jovens e das aventuras de mocinhas. O marido ficou olhando meio atravessado, mas conteve a curiosidade de maiores detalhes. Preferiu não dar importância àquelas lembranças e curtir também o presente. Nenhuma outra pessoa se aventurou a pegar no microfone e falar algo para a aniversariante. Eram muitos amigos e vizinhos, mas a vergonha de cada um era bem maior que suas vontades. Para finalizar, a animadora se despediu dizendo que aquela noite foi um presente ofertado pelo marido de Flavicleide. Tão subitamente quanto chegou, desliga a aparelhagem de som, fecha o porta-malas do Chevette e se perde no meio da fumaça oleada de seu motor. Os vizinhos ainda ficaram em suas portas acompanhando com os ouvidos os estampidos da sucataria.

Dei duas voltas na chave da porta larga de minha varanda e depois me contaram que lá para as tantas horas da noite, o marido de Flavicleide apareceu com uma caixinha atarracada e embrulhada em um papel de presente meio sem cor. Era o fechamento da noite. Flavicleide abriu o pequeno pacote e também o sorriso quando viu o frasco de perfume. Vestiu a camisola lavada com Omo, destampou o vidrinho e espalhou algumas gotas por detrás das orelhas. O perfumezinho durou por quase dois meses e a última gotinha perdeu-se no corpo de Flavicleide na mesma noite que souberam, pelos exames e pelos atrasos das regras, que os trigêmeos estavam se preparando para chegar.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

De como Cleonice Batista conseguiu viver um grande amor... (micro-conto)

...Apenas juntando, nas poucas tardes de folga, em sua pequena bolsa de mão, os minúsculos amores que se encontravam nas beiras das calçadas altas.

Arco-íris

Tinha um pouco menos de um metro e conhecia a casa como a palma de sua mão. Os cabelinhos dela insistiam em cair sobre os olhos e seus dedinhos miúdos catavam tudo que estava por perto.

Quando passava pela cozinha abria o sorrisinho maroto quando sentia o cheiro de mingau com canela que fervia no pequeno fogão de duas bocas. Espalhava pelo chão da sala as peças de montar e encontrava sempre os pares corretos: o cilindro no furo circular, o quadrado no outro furo quadrado, a estrela de cinco pontas que se encaixava em seu negativo. Quando cansada não precisava nem fechar os olhinhos claros, estendia os bracinhos pequenos e pedia arrego das traquinagens.

O sono da pequena era leve e quando as vozes conhecidas cortavam o quarto e sala ela abria e remexia seus olhinhos pequenos em busca desses quase desconhecidos – pelos seus ouvidos, buscavam sempre o inaudível.

A singeleza de sua curiosidade buscava o desconhecido. Ora despertava graça, ora uma esquisitice por uma escuridão que nunca será feita luz...

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Minha história (micro conto)

(...)

Para que perder tempo contando bobagens, se no fim das contas todos já sabem que vou morrer mesmo?

Um fadado reconto

O lobo mau, pela brecha da porta, encontrou a pequena Chapeuzinho num engalfinhamento sob o lençol de estampas encardidas. O lobo pendia de lado, torcia a cara comprida, franzia a testa, deslizava sua mão peluda para dentro de sua calça sem braguilha. E cada vez mais a Chapeuzinho se remoia debaixo dos panos e mostrava suas ancas brancas e lisas sob a pouca luz. Num piscar de olhos vermelhos, o velho lobo, que tudo via, percebeu a Cinderela se aproximar, ajoelhar-se e mergulhar-se no entreperna da agonizante Chapéu.

Espalharam lençóis, arremessaram travesseiros, dedilharam os segredos, misturaram as línguas e fizeram parte dos desejos secretos daquele canídeo em dissidência.

Enquanto isso, no meio da floresta, o valente caçador e seu rifle de cano duplo descansava o seu corpo ao lado do príncipe de olhos claros e se preparava para se deliciar de mais um espasmo quente e lactescente.

E a bruxa? A bruxa batia a última capa d’O Pequeno Príncipe e adormecia desdenhosamente numa rede larga de varandas alvejadas em anil.

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domingo, 9 de agosto de 2009

Enquanto o rei se entrega ao sono

... A política se discute em efusão. Os copos de vidro enchem-se, esvaziam-se e enchem-se mais uma vez. O destino é traçado, rabiscado, moldado em fotografias. Os erros são analisados, teorias conspiratórias são desarticuladas, outras nem tanto. As conversas minam, o silêncio é retomado quando um suspeito cruza o beco, os sussurros fantasiam segredos. Um ou outro disfarça o crime, o imbróglio, uma galhofa sem graça. A gargalhada não se reprime, o crime se contesta, azoadas ressurgem a cada trago.
A mesa é farta. Procriam-se o nada, o tudo, o talvez, o nunca mais, o eterno. Os súditos caolhos, outros claudicantes, os de atrofias nos braços, vários moucos, tantos de pouca vista, desaparecem numa escuridão de rua com desejos nossos de que nunca voltem.
Isso tudo enquanto o rei se entrega a um sono amarelo, verde, repleto de cores que ainda virão.

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Gata

Eu lambo o meu sexo aberto, cheiro o meu excremento, repugno-o no meio da rua. Passo por entre os carros, desvio de minha sombra, defloro o silêncio, guardo, em minha única roupa, manchas dos sangues alheios. Minhas unhas sem cores desfiam os dias, meus olhos, ora amarelos, ora castanhos, ardem sob os sois. Mastigo os meus filhos de ossos pequeninos e frágeis, engulo-os sentindo sua carne fria se misturar com as minhas certezas. Sinto-os voltarem para dentro de mim e me devolverem os restos de minhas vidas. Sento-me no portal de casas estranhas e num susto qualquer caio no meio de um tempo que, covardemente, nunca ousou me contar. Sou tantas que desapareço em breves piscares de olhos ignorantes, de olhos que despercebem os dias e as noites. Sou portadora de segredos de outras eras. Um dia, como contam, eu falava palavras que hoje não compreendo. Apenas sigo lambendo o meu sexo ainda aberto...

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segunda-feira, 25 de maio de 2009

Para o Beco, quem é do Beco...


Por José Correia Torres Neto

Quando a tarde cai e a noite, descaradamente, deixa pender a fina alça do vestido quase sem cor, eles se encontram. São os mesmos sorrisos, mas com as pilhérias renovadas que rodeiam as duas mesas. Lá se negociam sonhos, permutam-se os sarcasmos, pintam-se quadros alheios, fumam-se cigarros e cigarrilhas.

As velhas fachadas arregalam as quase perdidas cores e mimetizam a noite. Um chega, outro também, dez, quase doze, embaralham assuntos, enrolam línguas, falam de amor, de amadorismo, de rumos, de rumores. Quem são esses que se mostram para o mundo na penumbra desse beco estreito? Pode ser eu, tu, ele, sempre nós; não importa: será sempre um bequiano incurável.

Enquanto isso, a avenida larga e cheia de luzes morde os lábios com um desejo secreto (mas não tanto) de querer arrastar esse beco para o seu regaço, para que a lama lhe dê filhos, também letras, tintas, cores e meia dúzia de prazer.

E eles ainda continuarão por muito mais tempo e depois outros alinharão as mesmas mesas, com outras teorias, idéias, alterando geometrias, vontades, sorrisos, mas nunca longe desse Beco...


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Diário

Por José Correia Torres Neto


Era como se eu estivesse dentro d’água. Meus olhos permaneciam abertos durante horas – como se eu conhecesse horas e água - contemplando aquele mundo, exclusivamente, meu. Minhas mãos seguravam o vazio e o tudo ao mesmo tempo. Aquele calor invadia o meu corpo, acalentava o meu sono. Não importava dias ou noites, verões ou invernos, tarde ou cedo. Os sons abafados e quase inaudíveis conferiam todos os cantos, reentrâncias, dobraduras, gengivas lisas e vermelhas eram apenas sorrisos.

De repente um aperto que começa pela cabeça, algo que me faz gemer, algo que invade meu corpo, meus ouvidos. O tórax se alarga, os olhos sentem o calor, as articulações, o efeito da gravidade, meus órgãos se apertam, reviram-se, ajustam-se à força, a fórceps. Minha garganta estremece e invade os meus ouvidos, os cantos da sala e me dão apenas sorrisos.


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sábado, 23 de maio de 2009

O cozinheiro

(Conto premiado no 1º Concurso de Contos do Sindsaúde/RN 2009 - 1a Colocação)


O pequeno bar protegido pela porta de rolo, cor de ferrugem, sempre erguida às seis da manhã, era o suporte de muitos que passavam pelo centro da cidade com destino ao trabalho. Eram comerciantes, comerciários, camelôs, contínuos, flanelinhas, desocupados e beberrões que se escoravam no balcão comprido para pedir ou um café pingado, ou a primeira dose do dia, para saber das novidades da noite anterior, ou sobre as promessas do dia que insistentemente avança.

Solano, com o seu pano de prato encardido pendurado no ombro esquerdo, atendia um e outro e ao mesmo tempo puxava conversa sobre tudo. No centro do salão uma mesa de sinuca, com seu pano verde amarrotado, reunia meia dúzia de pretensos jogadores. Copos de cachaça e algumas xícaras de café repousavam na beira duma mesa desnivelada enquanto o expediente de algumas repartições e de algumas lojas ainda não se iniciava. A diária de Solano estendia-se das cinco da manhã até as duas horas da madrugada do dia seguinte. Dormia apenas três horas a cada ciclo.

Durante o dia, além das cachaças servidas no balcão, preparava pratos diferentes para servir como petiscos aos clientes, na tentativa de, ora enganar a fome, ora enganar a própria consciência de que a cachaça não era a única companhia do estômago boquiaberto. As carnes protagonizavam os pratos daquele bar. Fossem em pedaço, sob forma de pequenas iscas, na chapa, ao molho, moída, enrolada com queijo, no escondidinho com macaxeira, cozida, em espetinhos, completando a paçoca, assada no azeite, perdida dentro do feijão preto e até flambada ao vinho branco eram as especialidades do mal-amanhado cozinheiro. Todos os seus pratos já eram conhecidos pelos freqüentadores do centro da cidade e cada freguês já tinha a sua preferência.

Solano fartava-se com os elogios dos seus principais clientes quando criava ou reinventava um prato à base de carne fresca, macia, untada de temperos e de muitos mistérios. Ele cerrava suas portas religiosamente nas altas madrugadas e, se fosse preciso, enxotava os fregueses à vassouradas, mas nunca passava desse horário já estabelecido há muito tempo. Trocava de roupa e saía sob o silêncio da noite em direção ao Alecrim. Quando retornava – em torno de uma hora depois com alguns embrulhos debaixo do braço – levantava apenas um terço da porta de rolo, entrava e voltava a fechar. Dirigia-se à cozinha do bar e deixava os embrulhos sobre a mesa do canto enquanto vestia o avental de cores ignoradas pelo uso e separava as duas peixeiras afiadas. Voltava aos embrulhos e desatava os barbantes com um só golpe. No chão, ao lado dos seus pés, um gato amarelo, de pouco pêlo e olhar lânguido, vigiava todas as suas ações. Solano iniciava o corte da carne que seria servido mais tarde aos seus fiéis fregueses. Tiras, bifes, pedaços quadrados, outros enrolados em lâminas de queijo e porções esmagadas no moinho acinzentado eram cuidadosamente embrulhadas em plásticos para depois serem guardadas na geladeira, lá no fundo do bar. Alguma pele, pelanca ou gordura que sobrava do trato era atirada ao gato que, de aparência semimorta, fartar-se.

Quando o trabalho de retalhar a carne cessava, Solano apagava a única lâmpada da cozinha, fechava a porta do bar pela parte externa e atravessava a praça em direção ao Passo da Pátria. Um pouco antes das seis, ele retornava ao bar, levantava por completo a porta de rolo, varria o chão, organizava as poucas cadeiras e mesas no salão, passava a escova de engraxar sapatos sobre o pano verde da mesa de sinuca, vestia o mesmo avental e começava a preparar as iguarias com as carnes retalhadas há pouco tempo; enquanto isso o gato amarelo dormia encolhido debaixo da pia úmida, lodosa e escura.

A rotina foi sempre a mesma durante décadas. Abrir, limpar, cozinhar, receber, buscar carnes, cortar e guardar, fechar, voltar e começar tudo novamente. Apesar da habilidade na cozinha, dos saborosos pratos feitos por eles e pelos elogios recebidos, Solano nunca provava de suas receitas. Dizia que desde criança tinha deixado de comer carne em função de um não-sei-quê de motivo.

Nos pequenos intervalos de pouco movimento do bar, Solano folheava o jornal do dia. Classificados, notícias policiais, futebol e o obituário eram revistos pelo semi-analfabetismo de Solano. Com isso tinha conversa disponível para todos os tipos de clientes.

Por volta de uma e meia da madrugada Solano começava o ritual para fechar o bar. Depois da limpeza procurava o pequeno machado de cabo envernizado, a faca de gume duplo e a marreta de ferro. Colocava tudo em uma bolsa pequena, discreta. Caminhava pela Avenida Rio Branco, descia e subia a ladeira do Baldo em direção ao mesmo Alecrim de sempre. Do lado da igreja de São Pedro já percebia o vazio promovido pelas adiantadas horas. Seguia um pouco mais e parava em frente ao portão do cemitério; contornava-o pela mesma calçada até encontrar a entrada de serviço que era utilizado raramente pelos coveiros. Uma tranqueta de ferro meio enferrujada abarcada por um cadeado pequeno era o que impedia a entrada de estranhos. Solano parava mais uma vez. Metia a mão no bolso da calça lisa, ainda vincada, retirava uma pequena lâmina denteada e abridora de fechaduras. Introduzia o pequeno artefato no cadeado fosco e retorcia duas, três, no máximo quatro vezes e sentia o destrave do mecanismo.

Solano, com a passagem já aberta, entrava e tornava a colocar o cadeado na mesma posição na tranca impedindo fortuitas e indesejáveis visitas. Já dentro do cemitério e com a chave falsa dentro do bolso, Solano procurava uma claridade. Sentava-se e desenrolava um pequeno recorte de jornal que trazia a relação dos mortos sepultados nesse mesmo dia. Percorria cada rua do cemitério em busca de uma cova com vestígios de revolvimento de terra ainda em evidência. Quando achava, conferia, para ter certeza, o nome inscrito nas plaquetas, nas lápides, nos epitáfios, ou até mesmo nas coroas de flores postas há pouco.

Cavoucava a terra com as mãos até topar com a tampa abaulada do ataúde. Com a machadinha quebrava a parte inferior, próximo aos pés do falecido ou falecida, e trazia para fora uma perna. Quando era na parte superior da caixa, catava um ou os dois braços; ou o par de seios, quando mulher. A faca cortava as roupas e por fim as articulações. Com alguns golpes de cutelo ele limpava os ossos, extraia as carnes ainda frescas e embrulhava em sacos plásticos e, por fora, em folhas jornais. Para concluir a medonha marchantaria, retornava os ossos lisos e umedecidos aos seus devidos donos.

Retornava a terra caprichosamente sobre a sepultura. Ajustava as coroas de flores da mesma maneira que tinha encontrado. Limpava as mãos e as ferramentas nos pedaços de jornais que ainda sobravam. Eram poucos os dias que Solano não fazia do cemitério o seu açougue particular. Quando o morto era obeso a quantidade de carne abastecia aquele estranho hábito por quase três dias, mas quando se tratavam de crianças, idosos ou pessoas que se exauriam por alguma doença, era necessário retornar com brevidade. Concluído o trabalho, Solano fazia o caminho inverso. Abria a passagem com a improvisada chave, fechava-a, descia a ladeira do baldo, tornava a subir, caminhava pela Avenida Rio Branco, atravessava a praça até parar de frente a porta de rolo. Dentro do bar o gato amarelo espichava-se tentando espantar a preguiça. Seria o seu primeiro e único banquete diário.


A postagem acima foi um oferecimento de:


quinta-feira, 2 de abril de 2009

Duo

José Correia Torres Neto


A viúva acendeu as quatro velas, duas em cada lado, arrumou as flores, as coroas e preparou biscoitos e café. A bacia de gelo resfriava de baixo para cima o marido estirado dentro do esquife enquanto que os amigos e parentes iam chegando. A noite seria longa e movimentada. Os filhos estavam espalhados pelo mundo e a cada hora ia surgindo mais um. Pela manhã todos revezavam as alças douradas. Agora eram viúvas que choravam o corpo e tantos outros filhos desbenditos. O silêncio da primeira viúva percorria as horas, destilava a última gota de paciência, furtava as imagens, os clamores; enquanto que a outra jardinava o defunto com lágrimas tão verdadeiras como as flores de plásticos das grinaldas. Quando a argamassa escondeu a última fresta restaram, além de alguns amigos, apenas uma mulher livre e outra inúbia.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Temperos

José Correia Torres Neto

Sua mão firme rasgou a garganta de cima abaixo. Escorria pelo cabo da faca um fio leve de sangue. Sentiu o corpo esmorecendo e aqueles olhos pequenos perderem lentamente o brilho. Deixou-o esfriar e, enquanto lavava as mãos e a faca, sentiu um arrependimento na alma. A família reunida esperava o inicio do almoço de domingo quando ela apareceu, já recomposta, com a travessa e os pedaços cortados e temperados. Agora eram os olhos dela que perdiam o brilho, mas o que importava era a felicidade de todos após a morte da inócua e minúscula ave.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Antes que a segunda me avance

José Correia Torres Neto


Os domingos sempre começavam bem cedo, às seis. As tarefas eram alinhadas de maneira sistêmica, calculadas meticulosamente, executadas de acordo com o planejado.

Quintal varrido, cachorros banhados, roupas e quarto arrumados, água fervendo no fogão de quatro bocas, um pacote de macarrão e uma lata de sardinha à espera.

As janelas e seus vitrais foscos separam as chuvas do cheiro de mofo dos quartos esquecidos. No outro lado da rua o homem magro apunhalava a mulher de cabelos longos e loiros. No fim da espreitada uma vontade de lamentar as teias de aranha que ainda se penduravam nas estantes de vidro. E lá se foi o domingo...

Sumários

José Correia Torres Neto


Foi uma sensação rápida e sem nenhum motivo teve a certeza que morreria naquele instante. Lembrou que tudo em sua vida ainda estava pela metade. Não sentiu nada, nenhuma dor, nenhuma agonia, nenhum mal-estar, apenas a certeza de não conseguiria atravessar o atual minuto. Colocou o livro na estante da livraria e esperou os olhos fecharem. Desistiu de ler as lombadas enfileiradas. Plantou os pés e não saiu mais do lugar. Encostou os dedos longos na pilha de livros e minguou-se até distribuir-se em letras na página vinte e oito do Nelson Rodrigues mais próximo.

terça-feira, 10 de março de 2009

Numa tarde

...Como meninos eles corriam no meio do beco estreito, outros traquinavam, brincavam com areias coloridas, pintavam telas. As meninas vestiam flores, como se seus braços, seus olhares e seus sorrisos vermelhos já não fossem as próprias flores.

Os cigarros e charutos com seus novelos de fumaça perfumavam o beco. Levava a conversa para a outra mesa. O pintor olhava a tinta estirada na tela, o músico apenas cantava...

“Essa é uma terra de um deus mar
De um deus mar que vive para o sol
E esse sol está muito perto daqui
Venha e veja tanto quanto pode se curtir” [P.M]

segunda-feira, 9 de março de 2009

Quando falto